A Síndrome de Estocolmo

A revista Mistérios da Psique, uma publicação da Editora Mythos, em sua edição nº 7, de março de 2017, conterá o seguinte artigo:

 A Síndrome de Estocolmo
Relações de Poder Desequilibradas

 

Em 23 de agosto de 1973, Jan-Erik Olsson, um ex-presidiário em liberdade condicional, iniciou um assalto a banco que acabaria fracassando, mas daria uma nova interpretação à maneira como o mundo vê situações envolvendo reféns e os efeitos psicológicos resultantes de relações de poder desequilibradas.

O incidente teve início quando Olsson entrou em uma agência bancária no centro de Estocolmo, a capital da Suécia, armado com uma metralhadora. Inicialmente, exigiu a libertação da prisão de um comparsa, Clark Olofsson, que, então, se juntou a ele na agência bancária. Na tentativa inicial da polícia de capturar a dupla, Olsson atirou nos policiais, ferindo dois deles. Resultou um drama que durou cinco dias e envolveu até mesmo o primeiro-ministro sueco na época, Olof Palme, nas negociações para a libertação dos reféns. Olsson levou quatro reféns (três mulheres e um homem) para dentro da sala do cofre da agência. Afixou aos reféns cargas de dinamite e conectou-as a armadilhas que detonariam a dinamite e matariam os reféns se houvesse a tentativa das autoridades policiais de lançar nova operação de resgate. O incidente terminou em 28 de agosto, quando as autoridades policiais utilizaram gás paralisante e invadiram o estabelecimento. Nem Olsson, nem Olofsson e nem os reféns se feriram.

Ao serem libertados, os reféns mostraram ter mais simpatia pelos seus captores do que pela polícia que os libertara, chegando ao ponto de publicamente lamentarem o seu resgate. Dois dos reféns tornaram-se amigos de seus captores e organizaram uma coleta de dinheiro que foi usado para custear a defesa deles nos tribunais. O apoio aos captores, em detrimento da apreciação do trabalho de libertação da polícia, continuou por muitos anos após o incidente e há notícias de que duas das reféns visitaram os criminosos na prisão.

Olsson cumpriu pena pelo fracassado assalto, tendo sido libertado em 1980. Viveu por 15 anos na Tailândia, com sua esposa daquela nacionalidade, com quem teve um filho. Atualmente vive a vida de septuagenário aposentado na Suécia, onde se tornou uma celebridade. Em uma entrevista, declarou: “os reféns ficaram mais ou menos ao meu lado e me protegeram em algumas situações para que a polícia não atirasse em mim. Eles até mesmo desciam até o banheiro e a polícia queria que eles lá ficassem, mas sempre voltavam para onde eu estava.”   

Kristin Enmark, uma das reféns, na época, declarou em entrevista telefônica: “não tenho medo algum do Clark e do outro sujeito. Tenho medo da polícia. Você entende? Confio neles plenamente. Acredite se quiser, mas passamos momentos muito agradáveis aqui.”

Um psiquiatra americano, Frank Ochberg, leva o crédito por ter cunhado o termo “Síndrome de Estocolmo” que passou a representar um novo conceito de distúrbio comportamental, caracterizado pela dependência emocional da vítima em relação ao seu captor, algoz, abusador ou, em termos genéricos, ao seu “dominador”.

A Síndrome de Estocolmo ocorre quando a vítima se alia emocionalmente ao dominador para se proteger da ameaça do uso de violência, para preservar a sua integridade física e sobreviver.

Estudiosos do assunto concordam que algumas outras condições são essenciais à caracterização da Síndrome de Estocolmo: (1) sentimentos positivos da vítima em relação ao dominador; (2) sentimentos negativos da vítima em relação a familiares, amigos ou autoridades empenhados em seu resgate, para lhes prover apoio, ou obter sua libertação; (3) apoio da vítima às motivações e ações do dominador; (4) sentimentos positivos do dominador em relação à vítima (recíproca afetiva); (5) ações de apoio da vítima ao dominador, podendo chegar a efetivamente ajudá-lo; (6) incapacidade da vítima em se engajar em sua libertação física ou emocional, mesmo quando tem condições de escapar do jugo do dominador.

No que constitui um ato de negação, a vítima visa a se convencer de que estará protegida ao se subjugar e que o dominador “cuidará” dela. Ocorre um processo de infantilização, com a vítima acomodando-se no papel de criança amparada pela “mãe” (o dominador). Ao criar essa falsa ligação emocional e buscar a apreciação e a aprovação do dominador, cria para si uma falsa realidade que a faz acreditar que nenhum mal poderá atingi-la porque ela “ama” o dominador e obedece a todos os seus comandos. Ao defender e/ou proteger o dominador das autoridades policiais, ou de quem quer que seja que venha para ajudá-la, a vítima acredita que possui um mínimo de controle sobre a relação com o dominador, mas que, de fato, não possui. O valor de sua vida, que lhe é “dada” pelo dominador, é traduzido em afeto ou amor, e a vítima busca corresponder a esse sentimento do dominador para manter o equilíbrio emocional (na verdade, é manter o desequilíbrio emocional) estabelecido entre ambos. Quando a vítima aceita tornar-se um mero objeto, abrindo mão de sua dignidade humana, ela enfraquece a sua capacidade de controlar as suas próprias emoções. Ela se anula emocionalmente. Isso a torna maleável, fazendo-se facilmente suscetível aos caprichos de seu dominador, criando essa relação desequilibrada entre a vítima e o dominador.

A Síndrome de Estocolmo se caracteriza mais especificamente quando existe uma situação envolvendo reféns, mas essa relação desequilibrada entre vítima e dominador é bastante comum na vida em sociedade e foi analisada em muitos outros contextos. Por exemplo, ela ocorre com crianças e mulheres abusadas, com destaque para os casos de prostitutas oprimidas e exploradas por seus cafetões, em cultos religiosos, em relações conjugais ou outras relações sociais em que uma pessoa exerce um domínio desproporcional sobre uma outra pessoa, em situações que ocorrem em campos de prisioneiros de guerra ou em presídios, e até mesmo em movimentos políticos, em que líderes populistas exercem um fascínio sobre as massas. Em suma, ocorre sempre que pessoas ou instituições exercerem um controle desproporcional ou abusivo sobre quem não pode se defender ou pensa não poder se defender.

Observa-se que a escravidão de africanos, ocorrida nas Américas por mais de 300 anos, e a de outros povos ao longo de milhares de anos na história da humanidade, presta-se a exemplificar uma relação desequilibrada entre o proprietário e o escravo, que molda até os dias atuais a cultura do preconceito social, com a vítima (o escravo) sendo rotulado de ser “inferior” à categoria social a que pertence o dominador (o proprietário do escravo). Isso é tão mais verdadeiro quando há diferenças de etnia e de raça entre um e outro. Há nos livros de história relatos sobre como muitos escravos africanos não queriam ser libertados quando houve a abolição porque perderiam a sua referência da ordem social e o “afeto” e os “cuidados” que recebiam de seus dominadores. Esse anseio falava mais alto do que o sofrimento vivido na condição de aprisionado, subjugado, abusado ou maltratado.

Porquanto conceito básico, a Síndrome de Estocolmo é a dualidade de uma relação de poder de uma pessoa sobre outra. Uma pessoa feita refém se torna profundamente envolvida com o seu captor devido à típica circunscrição ambiental, e porque apesar de abusos e ameaças, e a crença da vítima de que poderá vir a sucumbir caso se rebele contra o dominador, ambos, vítima e dominador, precisam aceitar a situação que vivem como única forma de contato e de empatia a uni-los. A necessidade de ter, ainda que sob coerção, o sentimento de aprovação e reafirmação vindo do dominador, em combinação com o sentimento de medo e castigo, cria o tipo de vínculo tão desprezível como o que é sintetizado na Síndrome de Estocolmo.

É preciso dizer claramente que a Síndrome de Estocolmo não é um estado psíquico diagnosticado pela literatura acadêmica. É, essencialmente, um conceito criado pela mídia em função da ampla repercussão de casos que chegaram às manchetes dos jornais e sensibilizaram a opinião pública em maior ou menor grau. Sobre esse assunto, existem na literatura mundial diversos casos que foram amplamente explorados pela mídia. Todos esses casos evidenciaram as seguintes características em comum: (1) todas as vítimas eram jovens; (2) todas foram diretamente ameaçadas, ou efetivamente abusadas, física, emocional e/ou sexualmente; (3) todas ficaram confinadas fisicamente; (4) em todos os casos menos um as vítimas tiveram a oportunidade de se evadir, mas não o fizeram. Parece haver um certo conforto psíquico em poder classificar casos de domínio de vítimas como casos da Síndrome de Estocolmo porque permite explicar um comportamento humano que não é de outro modo explicável pelas ciências da psique.

Neste artigo, mencionarei alguns dos casos mais frequentemente citados na literatura internacional. Nos primeiros dois casos explicados a seguir, o pano de fundo do aprisionamento das vítimas, que eram mulheres, era a realização de ideais de seus captores.

O primeiro caso é o de Patricia Hearst, filha do magnata americano das comunicações William Randolph Hearst, sequestrada de sua casa aos 19 anos de idade em 4 de fevereiro de 1974 por elementos de uma organização política marxista chamada “Exército Simbionês de Libertação”. A ESL professava lutar contra o racismo, a monogamia e o sistema penitenciário e pretendia formar “lares” para minorias étnicas, utilizando-se da luta armada urbana para causar impacto e aparecer na mídia, visando a provocar uma revolta popular e a adesão às suas propostas. Patricia Hearst teria ficado trancafiada por dois meses em minúsculo espaço de confinamento, com os olhos vedados, no qual teria sido repetidamente abusada física, psicológica e sexualmente por integrantes do ESL, e submetida a rigorosa doutrinação nos ideais da organização. Teria sofrido lavagem cerebral (o argumento usado por sua defesa durante o seu julgamento), aderido ao grupo e participado de suas ações criminosas usando o nome de Tânia (supostamente, em homenagem à esposa de Che Guevara, herói da revolução socialista cubana). Apareceu em fotografias na mídia portando arma de fogo e renegando sua vida “burguesa”. Em setembro de 1975, foi detida pelo FBI, e, em março de 1976, levada a julgamento por assalto à mão armada. Foi considerada culpada por um júri popular e condenada a sete anos de prisão. Após cumprir 21 meses da pena, ela foi comutada pelo presidente Jimmy Carter, e em janeiro de 2001, o presidente Bill Clinton concedeu-lhe pleno indulto presidencial faltando poucas horas para o término de seu mandato presidencial.

O segundo caso, também ocorrido nos EUA, é o de Elizabeth Smart, sequestrada de sua casa no estado de Utah, em junho de 2002, aos 14 anos e meio de idade. Nove meses mais tarde foi apreendida em uma blitz policial, caminhando na companhia de um casal de moradores sem teto, Brian Mitchell e sua companheira Wanda Barzee. Mitchell executara serviços na casa da família de Elizabeth e, portanto, conhecia a rotina da casa da menina. Elizabeth não revelou inicialmente a sua verdadeira identidade aos policiais que a apreenderam. Soube-se que ela não se aproveitou de diversas oportunidades para fugir. Suspeita-se que, a exemplo de Patricia Hearst, tenha sofrido lavagem cerebral. Mitchell, que se via como profeta religioso, fora expulso da congregação religiosa dos Mórmons e defendia a poligamia que aquela agremiação religiosa rejeitara formalmente havia muitos anos. Afirmava que considerava Elizabeth sua mulher e que a sequestrara atendendo a um chamado divino. Segundo depoimento de Elizabeth durante o julgamento de Mitchell, em que este foi condenado à prisão perpétua, Mitchell a estuprava diariamente, às vezes repetidamente ao dia, obrigava-a a assistir a filmes pornográficos e a consumir bebida alcoólica para “sossegá-la”.  Wanda Barzee, considerada psiquicamente perturbada, foi condenada à pena de 15 anos de reclusão. Atualmente, Elizabeth é casada, tem uma filha e está gravida de outro filho que nascerá no início de 2017. É jornalista e ativista na atividade de proteção a crianças, tem uma ONG para essa finalidade, e atua proativamente no combate à pornografia. É uma dedicada seguidora e ativista na Igreja Mórmon.

Outro caso ocorrido nos Estados Unidos envolveu Ariel Castro, um motorista de ônibus escolar, e suas três vítimas: Amanda Berry, Gina DeJesus e Michelle Knight. Castro sequestrou as três jovens em datas separadas e manteve-as aprisionadas por uma década em sua modesta casa na cidade de Cleveland, Ohio, onde construiu verdadeira prisão no porão. Durante o cativeiro, foram sistematicamente abusadas sexualmente, espancadas, mal alimentadas e mantidas acorrentadas ou em isolamento individual por longos períodos. Castro não permitia que as moças convivessem e fazia um terror psicológico entre elas para que desconfiassem uma das outras e não pudessem se aliar. Amanda chegou a ter uma filha gerada por Castro, e, em 2013, aproveitando-se de um descuido dele ao se ausentar da casa, que permitiu que ela se movimentasse nela, conseguiu se comunicar com os vizinhos, que chamaram a polícia. Castro foi condenado à prisão perpétua por sequestro, cárcere privado e assassinato (uma de suas reféns abortou após ser espancada por Castro). Enforcou-se na prisão um mês depois de iniciado o cumprimento da pena. Não terá suportado o sofrimento do confinamento que impôs a suas vítimas por 10 longos anos.

Um caso acontecido na Áustria também é ilustrativo do desequilíbrio de forças emocionais entre vítima e dominador. Em abril de 2008, uma chocante história de incesto e estupro veio à tona no vilarejo austríaco de Amstetten. Josef Fritzl, aos 73 anos, foi preso e posteriormente condenado à prisão perpétua, por manter em cárcere privado, no porão de sua casa, por um período de 24 anos, a própria filha, chamada Elisabeth, e três de sete filhos que ela teve gerados por Fritzl. O mais velho desses três filhos tinha 18 anos e o mais novo 5 anos, quando foram libertados e viram, pela primeira vez na vida, a luz do dia. À época do confinamento de Elisabeth, Fritzl era casado com a mãe dela, Rosemarie, com quem teve outros sete filhos. Elisabeth foi estuprada pela primeira vez pelo pai aos 11 anos de idade. Aos 15 anos, cansada dos abusos do pai, fugiu de casa, mas, encontrada em Viena três semanas depois, foi devolvida à família pelas autoridades. Nessa época, Fritzl havia começado a construir o calabouço no porão da casa, e em dado momento, pediu à Elisabeth que o ajudasse a instalar uma porta no porão. Concluída a tarefa, anestesiou a filha com um pano embebecido em éter e a prendeu no cativeiro – um compartimento secreto, de uns 60 metros quadrados e 1,70 metros de altura, sem luz ou ventilação naturais. Para a sua mulher e para as pessoas em geral, ao explicar o sumiço de Elisabeth, aos 19 anos de idade, contou que ela fugira para se unir a uma seita. Um mês depois de seu desaparecimento apareceu uma carta dela explicando essa história inventada pelo pai. Foi obrigada por Fritzl a escrever a carta, bem como outras que acompanhavam os quatro filhos dela que não ficaram no cativeiro, mas foram depositados ainda bebês à entrada da casa. Nas cartas solicitava que os pais, Fritzl e Rosemarie, cuidassem das crianças que ela, Elisabeth, não tinha condições de criar.

O incidente em Estocolmo durou 5 dias. A odisseia de Patricia Hearst, quase dois anos. Ariel Castro encarcerou suas três vítimas por 10 anos. Fritzl, o “monstro de Amstetten” aprisionou a filha e três filhos dela, de quem ele era ao mesmo tempo pai e avô, por até 24 anos. Esses casos têm em comum o desequilíbrio emocional entre vítima e dominador e, ainda que haja diferenças pontuais nas características e na intensidade das variáveis características da síndrome em cada caso, pode-se afirmar que se configura sim a “Síndrome de Estocolmo” em todos os casos, na medida em que as vítimas tiveram de se conformar à vontade do respectivo dominador, criando vínculos afetivos e fazendo-o para sobreviver.

 

Fonte exclusiva: Diversos sites na Internet, entre os quais:

https://www.researchgate.net/profile/Elizabeth_Sampson/publication/5819575_%27Stockholm_syndrome%27_Psychiatric_diagnosis_or_urban_myth/links/551020c10cf224726ac521d1.pdf;

www.nurturingpotential.net/Issue13/Stockholm.htm;

serendip.brynmawr.edu › Home › Blogs › SerendipUpdate's blog;

studymoose.com/stockholm-syndrome-essay;

www.thejournal.ie/where-stockholm-syndrome-phrase-came-from-1047449-Aug2013/;

counsellingresource.com › Therapy › Self-Help and Overviews;

https://newsdeskinternational.wordpress.com/.../the-children-of-josef-fritzl-5-years-lat...;

www.cnn.com/2013/09/04/justice/ariel-castro-cleveland-kidnapper-death/;

www.dailymail.co.uk/.../Cleveland-house-horrors-survivors-reveal-Ariel-Castro-raped....